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Meu amigo eletrocardiograma
André - 13 maio 2013 - 23:52
Não vou começar o texto dizendo que eu não gosto de hospitais porque, bem, sejamos sinceros, não há ninguém que goste de hospitais. Seria o mesmo que iniciar falando "lá estava eu, respirando, quando...". Afinal, a melhor coisa que pode acontecer em um hospital é você sair de lá normal, zerado, exatamente como você estava antes de decidir que precisava ir ao hospital. Mas enfim. Ocorreu que a vida gentilmente solicitou que eu fosse até o hospital Mãe de Deus, fizesse o registro do meu RG na recepção para que tivessem meu controle de acesso caso eu quisesse sair de lá roubando, sei lá, novocaína?, tentasse passar o cartão de visitante no leitor errado da catraca, recebesse instruções efusivas do segurança, acertasse, subisse de elevador, travasse um diálogo cordial mas seco com pessas atrás de um balcão e fosse nominalmente chamado ("André Nique Costa", mas pronunciando o "Nique" como se fosse "Nick", por sei lá qual motivo. Deve ser coisa da nova ortografia) para realizar um exame de eletrocardiograma.

Foi um exame de rotina. Pelo menos foi assim que o médico e a técnica o definiram, já que, como eu nunca havia feito um antes, aquilo era tudo menos rotina, e eu sinceramente achei insensibilidade da parte deles assumir que eu achava aquilo rotina, como se me eletrocardiogramasse o tempo todo. Além do mais, palavras com cinco sílabas ou mais só podem ser engraçadas ("estapafúrdio") ou intimidadoras ("eletrocardiograma", "vulcanização"). Assim, foi com muita coragem nas veias que acompanhei a baixinha de cabelos encaracolados, jaleco branco e incisivas frases de protesto contra o sistema de tantas horas seguidas de trabalho.

Entramos em uma sala cujas paredes mal pintadas de azul me passavam a tranquila sensação de estar em um ambiente cirúrgico montado especialmente para que um médico pudesse tratar feridos do cartel de drogas mexicano. O que é obviamente um exagero, já que a sala era impecavelmente limpa e asséptica como todas as salas médicas e todos os médicos, mas a impressão inicial foi essa. Era pequena, também, sobrando pouco espaço além da poltrona desvirtuada* e do gabinete que sustentava o equipamento, uma máquina que, em aparência e personalidade, era idêntica ao HAL de 2001 (aqui pode ser que minha imaginação tenha pregado uma peça e fosse apenas algo semelhante a uma impressora (se bem que qualquer coisa relacionada a impressoras nunca é tranquila)). Logo após ouvir uma mulher pedir para que eu tirasse a camiseta pela primeira vez em meses, deitei na poltrona desvirtuada e fixei o olhar no duto de ventilação, porque de alguma forma isso pareceu aumentar a segurança. E a baixinha de cabelos encaracolados veio primeiro passando gel e depois prendendo coisas com ventosas nos meus braços e peito e eu só não fiquei com medo de uma mulher com chicote e roupa de couro entrar na sala porque a coisa toda tinha uma atmosfera meio Matrix, tipo naquele momento em que eles acordam no mundo real, e daí eu lembrei que a Trinity usava uma roupa de couro no filme e um grande insight Matrix-nerds-sadomasô-cardiologia começou a pipocar na cabeça.

O insight foi interrompido pela experiência, que, contrariando todas as expectativas, foi completamente indolor e desprovida de qualquer desconforto físico ou psicológico. Vesti a camiseta de novo ao som dos planos imediatos da baixinha de cabelos encaracolados para fazer algo a respeito do sono que a aflige por ter ficado até tarde celebrando o dia das mães, desejando a ela sorte na empreitada de conseguir um café. Saí sozinho pelo corredor, atravessei a porta, desci o elevador, depositei o cartão no lugar indicado da catraca e me dirigi para a saída, onde o paradoxo "chuva + sol" me fez perceber que o status quo da rotina havia se restaurado após o exame. Estamos no Kansas novamente.

Mas voltei ao local na mesma tarde, com a promessa de que os resultados já estariam disponíveis. Eu era o único cliente/paciente lá, então logo dei meu nome e um sujeito educado, aquela típica educação do outro lado do balcão, começou a remexer em alguns papéis para achar a análise do teste, em um movimento rápido de mãos que faria muitos dealers de cassinos corarem de inveja. Mas não parecia encontrar. Passava de lá pra cá, cá pra lá, trocava a ordem, perguntava meu nome de novo, nada. A coisa ficou nessa dança de celulose por um tempo até que um diferente sujeito-educado-do-outro-lado-do-balcão cordialmente abriu uma gaveta, encontrou cordialmente os resultados do exame dentro dela e me entregou de forma cordial. E eu saí aliviado, em parte por ter nas mãos o exame e, em parte, por ter me equivocado durante a cruzada para encontrar o papel certo: enquanto o homem do balcão lá jogava folhas de um lado para o outro, vi um papel com um círculo vermelho e um "D" enorme dentro dele e logo pensei "pronto, rodei no eletrocardiograma".

*digo "desvirtuada" porque era uma daquelas poltronas edificantes, cujo habitat natural é a alguns metros de distância de uma televisão de oitenta polegadas, mas que aqui estava claramente sendo usada para propósitos inadequados.
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